CDU exige transparência: Campanhã não pode ser sacrificada ao TGV e ao negócio urbanístico
A CDU acompanha com preocupação as novas informações relativas ao projecto da Linha de Alta Velocidade, designadamente a alteração da solução para a estação de Gaia, a nova configuração da ponte sobre o Douro em duplo tabuleiro e a articulação deste projecto com o Plano de Urbanização de Campanhã.
A CDU reafirma que a modernização da ferrovia, a alta velocidade e o reforço do transporte público são objetivos positivos e necessários. Mas não aceita que, em nome da alta velocidade, se imponha à cidade uma operação urbanística e rodoviária decidida sem transparência, sem avaliação integrada dos impactos e sem participação efetiva das populações.
As informações conhecidas confirmam que o projecto continua a sofrer alterações relevantes: profundidade da estação em Gaia, solução da travessia do Douro, organização dos tabuleiros, acessos rodoviários, impacto nos túneis e articulação com Campanhã. Ao mesmo tempo, o Plano de Urbanização de Campanhã prevê um anel rodoviário e novas infraestruturas associadas à estação. Esta combinação levanta uma questão essencial: Campanhã vai ser servida pela alta velocidade ou vai ser transformada num nó de circulação, tráfego automóvel e pressão imobiliária?
A CDU considera inaceitável que a discussão seja feita por partes: ora a ponte, ora a estação de Gaia, ora o anel de Campanhã, ora o túnel, ora o plano urbanístico. A população tem direito a conhecer o projecto completo, os seus impactos acumulados e as alternativas estudadas.
É particularmente grave a postura do actual executivo municipal do Porto, liderado por Pedro Duarte e sustentado por PSD/CDS/IL. Perante uma intervenção desta escala, a Câmara Municipal não pode limitar-se a acompanhar decisões tomadas pelo Governo, pela Infraestruturas de Portugal ou por interesses privados associados à valorização fundiária e imobiliária. O papel da Câmara não é ser correia de transmissão de decisões externas: é defender os interesses da cidade e das populações directamente afectadas.
Até agora, o executivo de Pedro Duarte tem tratado este processo de forma lateral, sem discussão pública suficiente, sem prestação de contas aos órgãos municipais e sem envolver seriamente as populações de Campanhã. Pedro Duarte parece continuar a agir numa lógica de membro do Governo, privilegiando contactos institucionais fechados e alinhamentos com as opções governamentais, em vez de assumir plenamente a responsabilidade de presidente da Câmara Municipal do Porto.
A cidade não pode ser governada por conversas de gabinete, nem por decisões articuladas entre Governo, IP e operadores privados sem escrutínio democrático local. Campanhã não pode voltar a ser o território onde se instalam infraestruturas pesadas, se concentram impactos negativos e depois se entrega a valorização gerada pelo investimento público à especulação imobiliária.
A CDU exige, por isso:
- Publicação integral e actualizada dos projetos da estação de Campanhã, estação de Gaia, travessia do Douro, acessos, anel rodoviário e túnel previstos no Plano de Urbanização de Campanhã;
- Avaliação integrada dos impactos em Campanhã, Bonfim, zona oriental do Porto e Gaia, incluindo tráfego, ruído, vibrações, qualidade do ar, expropriações, demolições, comércio local, habitação e espaço público;
- Clarificação da função rodoviária da nova ponte sobre o Douro, rejeitando que uma obra apresentada como ferroviária e ambientalmente positiva sirva para criar mais um canal de entrada de automóveis na cidade.
- Discussão pública local em Campanhã, com sessões presenciais em horários acessíveis, envolvendo moradores, comerciantes, juntas de freguesia, associações, utentes dos transportes e trabalhadores;
- Debate obrigatório nos órgãos municipais, designadamente Câmara Municipal, Assembleia Municipal e Assembleia de Freguesia de Campanhã, antes de qualquer consolidação das opções urbanísticas e viárias;
- Prioridade absoluta ao transporte público, com reforço da STCP, metro, ferrovia suburbana, percursos pedonais e ligações cicláveis, em vez de novas soluções centradas no automóvel;
- Garantias para moradores e actividades económicas afectadas, com informação prévia, compensações justas, realojamento quando necessário e defesa do tecido social existente;
- Medidas contra a especulação imobiliária em Campanhã, garantindo que a valorização criada pelo investimento público reverta para habitação pública, renda verdadeiramente acessível, equipamentos colectivos e espaço público qualificado.
A CDU defende a alta velocidade ferroviária, mas exige que Campanhã seja tratada como território habitado, com direitos, memória, comércio, bairros e população — e não como plataforma técnica onde se despejam infraestruturas decididas pelo Governo, pela IP, pela Câmara e por interesses privados sem verdadeiro controlo democrático.
Porto, 11 de junho de 2026
CDU – Coligação Democrática Unitária








